Introdução

As pessoas não acordam a pensar hoje apetece-me entrar em conflito com um colega.
Só que no decorrer do dia, por vezes logo pela manhã, acontece.

Ninguém quer conflitos com os colegas, no entanto o clima de tensão está lá, quase rebentar. Isso é percetível nas conversas que não acontecem, ou que são dominadas pelo impulso. Opiniões que não são expressas, ou adiadas dia após dia. Decisões que demoram dias, semanas a serem tomadas.

A maioria das vezes as pessoas nem sabem qual a razão.

1 – Nem sempre é um problema de pessoas
Quando existe dificuldade nas relações, a explicação mais rápida costuma ser:
• É do feitio da pessoa, sempre foi assim;
• Não quer saber;
• É falta de profissionalismo;
• Parece se não se preocupa.

Até pode ser uma ou várias destas situações, ou não. Algo mais silencioso pode estar a acontecer e as pessoas nem têm consciência.
Pode ser de existência de papéis pouco claros, expectativas dos colaboradores diferentes, responsabilidades assumidas só por uns. Estas dinâmicas não visíveis aparecem nas relações não como uma causa e sim como uma consequência.

2 – O que a equipa já sente mesmo sem falar
Antes de um conflito aberto, existem pequenos sinais que vão aparecendo:
• Pessoas que se evitam;
• Conversas por existir;
• Reuniões onde se diz menos do que se pensa e sempre os mesmos a falar
• Decisões ocultadas ou pouco esclarecidas.
Estas situações vão mudando o ambiente e a equipa começa a perceber, mesmo quando ninguém diz nada.

3 – Cada pessoa reage como sabe e não como precisa
Em contexto de pressão, de exigência, mudança repentina ou de diferença, é ativada a forma como cada pessoa aprendeu a lidar com situações difíceis.

Algumas pessoas evitam as situações, é como se não existissem, outras reagem como se estivessem sempre a ser atacadas, outras assumem mais tarefas para compensar, outras pessoas afastam-se.
Isto acontece porque não têm outros recursos disponíveis para lidar com cada contexto, o que faz com que as relações comecem a tornarem-se difíceis.

4 – Quando ninguém quer olhar para as situações alguém acaba por suportar
Quando não existe espaço para lidar com o que está a acontecer, alguém acaba por suportar mais responsabilidade, mais pressão, mais desgaste emocional.

Com o tempo, isso começa a ter um custo, nem sempre visível, só que afeta a dinâmica da equipa. Com o tempo este custo vai-se acumulando de forma bem silenciosa, até começar a aparecer no corpo, na forma como as pessoas reagem em vez de agir, ou na dificuldade em desligar do trabalho. Começa aqui a existir espaço para os primeiros sinais de desgaste mais profundo.

Esses sinais podem ser desde irritabilidade, cansaço constante, estar sempre a realizar mais e mais, menor tolerância às situações, reatividade rápida.
Ao início pode não ser fácil reconhecer isto, só mais tarde se percebe que o corpo já estava a dar sinais há algum tempo.

Recentemente partilhei um episódio no Novas Perspetivas sobre como identificar estes momentos, pode ser um bom ponto de partida para quem quer perceber melhor o que está a acontecer.

5 – Perceber não muda as situações automaticamente
A equipa, mais dia menos dia, começa a reconhecer que as coisas não estão a funcionar, que é preciso falarem, mesmo sem saber como fazer e quem começa.

Esta consciência e fundamental, no entanto não é suficiente, porque perceber não muda automaticamente a forma como cada pessoa lida com as situações, comunica ou se posiciona. É por isso que algumas situações se repetem, mesmo depois de serem conversadas.

Com a tomada de consciência das situações é fulcral criar espaço para que as pessoas se possam expressar, com segurança emocional e psicológica. Aos poucos as relações começam a reforçar as suas interações de forma saudável.

6 – Uma pergunta para levares contigo
Se olhares para a tua equipa neste momento:

– O que está a ser sentido e não está a ser dito?


Fica atenta/o, a dinâmica diária começa a dar sinais.

Reflexão final
Em muitas equipas, o primeiro passo é perceber o que está a acontecer, existe, no entanto, algo que se torna ainda mais claro com o tempo e nem tudo muda apenas com consciência.
Existem competências que precisam de ser praticadas, testadas e sustentadas no dia-a-dia, é aí que muitas relações começam verdadeiramente a transformar-se e o verdadeiro sucesso acontece.